
A solidão dos homens...a solidão das mulheres!
(Texto da extraordinária Lia Luft)
A solidão dos homens tem a medida
Da solidão de suas mulheres.
Isso eu disse e escrevi - e repito - em dezenas
De palestras por este país afora.
Aí me pedem para escrever sobre o casal perfeito:
Bom para quem gosta de desafios.
O casal perfeito seria o que sabe aceitar
A solidão inevitável do ser humano,
Sem se sentir isolado do parceiro -
Ou sem se isolar dele?!
O casal perfeito seria o que entende,
Aceita, mas não se conforma,
Com o desgaste de qualquer convívio
e qualquer união?!
Talvez se possa começar por aí:
não correr para o casamento, o namoro,
o amante (não importa) imaginando que agora
serão solucionados ou suavizados todos os problemas -
A chatice da casa dos pais,
As amigas ou amigos casando e tendo filhos,
A mesmice do emprego,
Chegar sozinho às festas e sexo difícil e sem afeto.
Não cair nos braços do outro
Como quem cai na armadilha do
"enfim nunca mais só!",
Porque aí é que a coisa começa a ferver.
Conviver é enfrentar o pior dos inimigos,
O insidioso, o silencioso,
O sempre à espreita, o incansável:
O tédio, o desencanto, esse inimigo de dois rostos.
Passada a primeira fase de paixão
(desculpem, mas ela passa, o que não significa
tédio nem fim de tesão),
A gente começa a amar de outro jeito.
Ou a amar melhor; ou, aí é que a gente começa a amar.
A querer bem; a apreciar; a respeitar; a valorizar; a mimar;
a sentir falta; a conceder espaço;
a querer que o outro cresça e não fique grudado na gente.
O cotidiano baixa sobre qualquer relação e qualquer vida,
com a poeira do desencanto e do cansaço, do tédio.
A conta a pagar, a empregada que não veio,
alguém na família doente ou complicada(o),
A mãe ou o pai deprimido ou simplesmente
O emprego sem graça e o patrão de mau humor.
E a gente explode e quer matar e morrer,
Quando cai aquela última gota -
Pode ser uma trivialíssima gota -
E nos damos conta:
Nada mais é como era no começo.
Nada foi como eu esperava.
Não sei ...



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